'
  • 20.nov.2010

    O debate entre esquerda e direita hoje

    Introdução

    Aqui vai breve resumo da aula que comentei em artigo anterior. As perguntas no final da aula foram de extrema relevância e estão, de alguma forma, aqui inseridas. Agradeço aos alunos que ali estavam, que me mostraram o quanto é possível pessoas dos mais diversos pontos do espectro ideológico conversarem sobre um assunto tão polêmico de forma tão amigável e respeitosa. Fiquei muito feliz pela experiência. Aqui tentei escrever da forma mais compreensível para quem não é da área.

    Esquerda e direita hoje

    No verão de 1989, a revista americana National Interest publicava um ensaio teórico – mais exatamente de filosofia da História – do intelectual nipo-americano Francis Fukuyama sobre os sinais – até então simplesmente anunciadores – do fim da Guerra Fria, cujo título estava destinado a deslanchar um debate ainda hoje controverso: “The End of History?”. Quando o artigo foi escrito por Fukuyama, Gorbachev ainda se debatia para implementar sua glasnost e sua perestroika, mas a capacidade de análise de Fukuyama já apontava o fim da Guerra Fria e a tese do caráter incontornável da democracia de mercado como sendo uma espécie de horizonte insuperável da nossa época.

    No artigo O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?, Paulo Roberto Almeida chama atenção para o fato de que Fukuyama não fazia uma afirmação peremptória, mas levantava uma hipótese sem caráter terminativo. “O interrogante básico de seu argumento tem a ver com a possibilidade de alternativas credíveis às democracias liberais de mercado, ponto”.

    A tese principal era a de que, durante o século XX, em que houve emergência e declínio dos regimes fascistas e comunistas, de enormes turbulências políticas e de crises econômicas, de contestação intelectual e prática ao liberalismo econômico e político de corte ocidental, o mundo estava retornando ao seu ponto inicial, qual seja o do triunfo inquestionável do sistema liberal ocidental.

    “O socialismo não foi ‘derrotado’ pelo capitalismo, de qualquer forma concreta e visível, ele simplesmente implodiu pela sua absoluta incapacidade de produzir, não mísseis nucleares, mas meias de nylon.” Paulo Roberto Almeida

    Para falar sobre direita e esquerda hoje é preciso situar que a Bipolaridade – ComunismoXCapitalismo – deu lugar a um mundo Multipolar vinte anos após a queda do Muro de Berlim. Muitas pessoas pensam esquerda e direita hoje desconectadas dessa realidade. Para MUITAS PESSOAS o Muro de Berlim ainda não caiu. Professores, Jornalistas, intelectuais, enfim… São os extremos ambos esclerosados e materialistas que serão apresentados logo mais. Os discursos descolados da realidade e da conjuntura mundial são ainda utilizados por aqueles que não tiveram oportunidade ou capacidade intelectual de se atualizar, muitas vezes por comodismo acadêmico ou apego a uma ideologia solta/descolada da realidade. Muitos utilizam também esse discurso não situado no presente como “razão de Estado” para se auto legitimarem no poder. Exemplo: Chávez.

    Segundo Hobsbawn, o comunismo ocidental entrou em colapso de maneira repentina e absoluta. Esse fato teria levado jornalistas, políticos e ideólogos a jogos de soma-zero. Se o comunismo perdeu, então seu antagonista, o capitalismo, deve ter vencido. Se as economias socialistas quebraram, então seu oposto binário, o liberalismo de livre mercado, deve ter triunfado (HOBSBAWN, 1998).

    Ver o mundo escolhendo simplesmente entre duas e apenas duas alternativas políticas (capitalismo ou socialismo) não esclareceria muito.

    Socialistas de todas as variedades deixaram de acreditar na possibilidade de uma não-economia de mercado total e na viabilidade e na conveniência de uma economia estatal de planejamento centralizado do tipo desenvolvido na URSS.

    O debate entre liberais e socialistas seria atualmente, no entanto, não sobre o mercado sem controle versus o Estado que tudo controla:

    “Não é sobre ser a favor ou contra o planejamento econômico, que existe tanto em economias capitalistas como em socialistas – nenhuma grande corporação poderia funcionar sem ele -, e não é ser a favor ou contra a empresa pública ou gerenciada, que até os liberais do mercado sempre aceitaram em princípio. É sobre os limites do capitalismo e do mercado sem o controle da ação pública. Para falar de outra maneira, é sobre os fins da política pública, ou, se preferirem, sobre as prioridades necessárias da ação pública” (HOBSBAWN, 1998, p.223).

    Giddens afirma que as ideologias políticas preexistentes perderam sua ressonância (GIDDENS, 1999, p.11).

    No livro Para Além da Esquerda e da Direita, Giddens destaca que podemos realmente dizer que estão surgindo determinados princípios éticos mais ou menos universais que tendem a unir todas as perspectivas fora dos domínios dos diversos fundamentalismos.

    Existem questões hoje como o meio-ambiente que estão na agenda dos candidatos – como questão universal – não se tratando de uma questão de direita ou esquerda.

    Para resumir e clarear o que foi dito, confira o espectro político-ideológico a seguir:

    [1] Marxismo esclerosado – Segundo Paulo Roberto de Almeida é nas universidades públicas da América Latina onde o marxismo esclerosado ainda consegue uma ridícula sobrevivência.

    [2] Perfeitos materialistas – Escola de Wall Street – Relativiza a importância da ideologia e da cultura e vê o homem como sendo essencialmente um indivíduo racional, maximizador dos lucros. É precisamente esse tipo de indivíduo e sua busca de incentivos materiais que aparece como a base da vida econômica nos manuais de economia.

    Conclusão: o debate entre direita e esquerda passa a girar em torno de questões operacionais entre Mercado e Estado. Até onde vai um e até onde vai o outro.

    Sugestões de leitura

    O livro Nomenklatura – escrito por um dos membros da própria Nomenklatura – espécie de ‘partido/congregação’ que assumiu o poder e a máquina pública quando a Rússia se tornou União Soviética. Aqui é possível fazer tranqüilamente uma analogia com o livro ‘A revolução dos bichos” de George Orwell – A Nomenklatura são os porcos da fábula orwelliana sobre a ‘igualdade’ na fazenda ‘socialista’ dos animais.

    O artigo da Revista EXAME de março de 2010 – Edição 963 – Estado grande ou estado forte? – o artigo traz um diagnóstico sobre a questão do equilíbrio entre mercado e Estado, mas articulando com elementos reais da conjuntura brasileira. Ou seja, já é uma análise concreta e não uma discussão abstrata de conceitos.

    O artigo de Paulo Roberto de Almeida, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas, diplomata de carreira desde 1977 e um dos maiores intelectuais brasileiros vivos: O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?. Artigo que norteou, em muito, minha aula e este resumo.

    O próprio artigo de Fukuyama, tão citado The End of History?

    GIDDENS, Anthony. Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical. São Paulo: Ed. Unesp, 1995.

    HOBSBAWN, Eric. “A crise atual das ideologias”. In: SADER, Emir; VASCONCELOS JÚNIOR, José Rossy e. O mundo depois da queda. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1998.

    Para quem assistiu à aula, irá notar que muitas questões foram suprimidas, como:

    i)                    a diferenciação entre Estado homogêneo universal (Hegel; Kojève) X Estado universal homogêneo;

    ii)                  análise materialista e não materialista (infraestruturaXsuperestrutura);

    iii)                questões pós-modernas que fogem ao debate de direita e esquerda.

    Se ficou alguma dúvida ou se quiserem fazer algum comentário, sintam-se a vontade para me mandar e-mail. Aqueles que não são da área e se interessarem também podem enviar e-mail sobre esses pontos: deborah@deborahcelentano.com.br

    Postado em 20 de novembro de 2010

Existem 3 Comentários sobre este tópico

  • Eustáquio disse:

    Interessante sua aula. A existência de uma ‘esquerda’ faz-me sempre lembrar dos textos de Hedley Bull e dos princípios da Lei Natural de Grotius. Embora ótimos na teoria, se esquecem de demonstrar como seria isso tudo na prática. Hoje, ao pensarmos num mundo uni-multi-polar, não conseguimos vislumbrar, por enquanto, outra alternativa senão o mundo-mercado (embora esse mercado possa perfeitamente ser regulado). Muito boa sua aula.

    Postado em 21 de novembro de 2010
  • Maria Angélica disse:

    Deborah:

    Parabéns! Vc é muuito inteligente, culta e sabe escrever mutíssimo bem!

    Sou sua fã.

    Beijos, Mamãe

    Postado em 21 de novembro de 2010
  • Paulo Roberto de Almeida disse:

    Deborah,
    Como disse sua mãe — e vou pedir emprestado isso a ela, sem pagar direitos autorais — você é muuito inteligente (eu colocaria muuuuuito), extremamente culta e sabe escrever maravllhosamente bem.
    Minha atenção foi chamada a seu artigo por um desses auxiliares gratuitos no chamado capitalismo sem free lunch: o Google Reader, e assim pude conhecer um pouco de seu trabalho.
    Confesso a você que fico um pouco encabulado de ser chamado de “um dos maiores intelectuais brasileiros vivos”. Será? Não acredito!
    E quando eu morrer: você vai me chamar de “um dos maiores intelectuais brasileiros mortos”? Acho que não…
    Em todo caso, muito grato pelas palavras muito gentis.
    Paulo Roberto de Almeida

    Postado em 25 de novembro de 2010

Faça o seu comentário

Sic