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  • 5.dez.2011

    A arte de defrontar o pensamento com a escolha de um meio cognoscível

    A díade é uma armadilha limitante, senão em todas as formas de pensamento, no pensar a realidade política brasileira nesse instante.

    Não nos cabe uma análise simplista que paira sobre uma dicotomia rasa, maniqueísta, primária.  Ver a conjuntura política brasileira sob prismas de movimentos taxados como o bom versus o ruim, no qual o PT ou o PSDB representam tudo o que há de bom ou tudo o que há de ruim é uma visão que parte de um pensamento primário, infantil, e mais uma vez raso. O cenário é mais complexo e uma discussão em torno dos respectivos programas e prioridades de cada linha se faz necessário. Há estruturas que não serão modificadas, áreas de status quo que não chegarão a ser sequer tocadas. Não há grandes polarizações tanto no cenário internacional como nacional para que mudanças de governo representem mudanças muito significativas.

    Mesmo que haja ajustes em alguns setores econômicos e sociais eles se dão a passos lentos, processuais. O que há entre as plataformas são diferenças de prioridades. Mas uma prioridade estar elencada em primeiro plano não significa que outras prioridades não configurarão em pano de fundo.

    A ilusão de que a corrupção está em um partido e não em outros também é pueril.

    Há corrupção em qualquer governo, de qualquer partido, porque a corrupção é intrínseca à politicagem, que, por sua vez, está inscrita dentro e fora da arena política. O que é relevante sobre a corrupção é que ela está sendo cada vez mais desvelada. Não é a corrupção que aumentou, são os mecanismos de reconhecimento e publicidade da corrupção que aumentaram. Isso se deve a um aparato estatal mais preparado (Tribunais de Contas, Polícia Federal, CGU, etc) e a uma revista que tem apresentado denúncias.

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    Sobre essa revista abro um parêntesis e um questionamento: Tal revista seria mais independente do que as outras por não receber qualquer financiamento público e até por isso, diferentemente das outras, tem tantas propagandas em seu interior. Por ser independente do financiamento público, essa revista tem se mostrado veículo de denúncias de corrupção ligadas ao governo.

    No Brasil a denúncia de corrupção pela mídia é muito vantajosa, pois há, constitucionalmente, por um lado, a vedação ao anonimato, mas por outro lado, resguarda-se o sigilo da fonte em reportagens jornalísticas. Nesse ponto, por uma posição declaradamente contrária ao partido do governo tal revista tem sido veículo de denúncias. A pergunta que se faz é: Se a oposição virar governo tal revista continuará fazendo o papel de veículo de denúncias de corrupção?

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    Os governos no século XXI têm diferentes prioridades, mas isso não é o suficiente para taxá-los como vilões e mocinhos como muitos veículos de mídia e pessoas o fazem.

    Essa visão dicotômica tão polarizada de algumas pessoas/jornalistas/pensadores/professores ao meu ver só pode ser uma herança mal resolvida de formação intelectual/processo educacional da época da Guerra Fria que só será superada pelas próximas gerações que não terão esse ranço bipolarizante.

    A realidade é muito mais complexa do que taxar um governo como corrupto e ruim e outro como bom e eficiente. Há coisas boas e ruins em todos os governos e características que se assemelham muito nos governos de quaisquer partidos cerceados pelo sistema do presidencialismo de coalizão brasileiro.

    Se a corrupção tem se tornado mais perceptível e transparente aos cidadãos espera-se não só que esse ganho seja mantido, mas que se dê o próximo passo: a superação da impunidade no Brasil, para que as peças impunes do jogo político não continuem voltando ao tabuleiro em posições diferentes.

    Pensar o governo e a oposição como vilões e mocinhos gera uma cortina de fumaça limitante à reflexão da realidade a qual estamos inseridos. É preciso defrontar o pensamento com a escolha de um meio cognoscível.

    Postado em 5 de dezembro de 2011

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